Qualquer pedinte de rua que toca gaita para o papagaio cantar um refrão da banda Calypso, ou pseudo-rockeiros que pensam em fazer música batendo panelas ou instrumentos exóticos, morreriam de inveja por nunca pensarem em tocar UMA MINI-GAIOLA DE PASSARINHO. Mas o pessoal do Tunng já fez isso e muito mais, e vem experimentando e crescendo exponencialmente a cada CD que lança, tendo o seu último lançamento, “Good Arrows”, atingido o ápice da obscuridade pop que desencarna de suas músicas.
Possuem 3 CD’s até agora, e um já programado (e muito aguardado pelos críticos que sempre respondem com uma surpresa imensa aos seus releases) para 1 de Março. Aqui na página oficial, eles estão disponibilizando uma faixa para download, que está incluida no próximo álbum. E sobre as músicas…? Bem, não consigo traduzir a sensação “heartwarming” para portugues, muito menos em qualquer outra palavra. Te conquista com os instrumentos, letras tão surreais que podem até soar um pouco infantis, vocais deslocados e complexos, e a orgia de cores e sons que parecem transcender a audição.
Bem, queria escrever aqui sobre um filme que eu vi nesse final de semana e me intrigou muito: A Fita Branca, do diretor Michael Haneke (Caché, Funny Games). Mas a sensação ao sair do cinema após a exibição ainda ta me corroendo com sua brutalidade e ao mesmo tempo simplicidade de falar sobre algo em sua essência: o mal. Daí hoje, pelo contrário, vi um filme que lá pelos seus 15 minutos de projeção, já me fez sentir algo bastante estabelecido: “que porcaria é essa, cadê os créditos finais?”. E o filme em questão é Nine, do Rob Marshall (Chicago).
Bem, não vou ficar falando aqui da história mais do que divulgada do filme, baseado num musical blablabla, que presta homenagem ao cinema italiano, e um diretor e filmes especificos e blablabla. Na verdade o filme pareceu uma grande coleção de fetiches descontrolados.
Mais como um retrato da cultura-pop atual, que busca nos antepassados a glória, a fama e a liberdade que faltam hoje numa sociedade hipócrita e recatada, o filme tenta se sustentar numa história fraca para mostrar divas, wayfarers e músicas insossas. Como tô sem paciência pra fechar esse texto sobre um filme que possui tantas falhas gritantes em uma coisa homogênea, vou apenas ressaltar 9 coisas que mais devem ser “observadas” nesse musical:
1- Apesar de ser uma das únicas três atrizes que tentam dar alguma dimensão à suas personagens, a Penelope Cruz realmente precisa daquela cena digna de filme pornô barato, quase mostrando a vagina? 2- Roteiro podre, que não traz atração nenhuma à suas personagens, ficando isso a cargo total dos atores (onde só alguns vão conseguir tal feito, como a Penelope, Marion, Judi e Daniel), e menos ainda na história, que começa sem graça, e acaba sem recompensa emocional para as pessoas que tão assistindo, sendo todo o filme solucionado nos seus 5 minutos finais. 3- A Sophia Loren já não possui mais controle facial NENHUM! 4- Bom, por mais jogada ao acaso que seja, o número musical da Fergie (que não possui fala nenhuma) é um dos mais interessantes, tanto pela dancinha e os pandeirinhos (adorei!), como pelo seu contexto visual e histórico, que é quando o diretor toma emprestado alguns planos e enquadramentos europeus pra contar um pouco da infância da personagem Guido, e numa tacada genial mostra a busca da personagem pelo prazer do corpo feminino e sua revolta contra as autoridades familiares, sociais e religiosos (coisa que o filme inteiro continua redundantemente insistindo em nos mostrar). 5- A cena da Nicole Kidman “cantando” ao redor da fonte? Seria bem mais legal se o desfecho fosse alguém jogando ela na água. 6-AI POR FAVOR, QUEM DISSE QUE A KATE HUDSON TEM A MELHOR PARTE MUSICAL??? Ela surge numa passarela, com modelos enrolados em ternos italianos e Wayfarers (alguém sentiu clichê aí?)!!! E quando eu penso que o único mérito da trilha sonora era não possuir nenhum apelo ao pop ou hip-hop, surge ela cantando a música mais irritante do filme, onde o refrão é tão catchy quanto qualquer uma da Lady Gaga e o visual parece qualquer coisa digna de uma ex-Spice Girl falida. 7- “Alguns comandam um banco, outros são padeiros e fazem pão, mas meu marido faz filmes”??????? WORST.SENTENCES.IN.A.SONG.EVER. 8- Rob Marshall tem dinheiro e vontade, mas falta talento e direção pra comandar tudo o que ele tinha nas mãos. 9- Até o momento em que eu escrevia o item 7 dessa lista, eu já tinho esquecido completamente do número musical da Judi Dench/Anna Wintour encalhada no piano.
E daí se você não faz idéia de como lidar com a métrica musical, ou não sabe em quantos compassos construir a sua música? O que importa é que você possui o último software de criação musical que possui mais comentários positivos no Torrent, uma boa porção de samples e quer fazer música capaz de desintoxicar os ouvidos afetados pela profusão radiofônica. E foi assim que surgiu o Washed Out, projeto do americano Ernst Greene a partir desse pensamento e do seu verão tedioso na casa dos pais com um computador cheio de parafernálias baratinhas.
Aqui eu podia citar todas essas nomenclaturas musicais andrógenas que andam surgindo com a evolução da música eletrônica e DIY, desde o synth-pop até o chill wave. Mas o que no final interessa é que você até consegue ver a fumaça mela-cueca dos clubes dos anos 80 quando fecha os olhos ouvindo a belíssima “Feel It Around”; o calorzinho do verão na casa de praia da família em “Belong” (que possui até um groove meio jamaicano); depois mudar drasticamente pra uma rave regada à muitos alucinógenos em “Lately”, e depois voltar no tempo, ter 12 anos e correr pro aniversário da vizinha ouvindo “Get Up”. Está começando a ganhar maior visualização agora depois de estar na lista das promessas para 2010 da NME, mas seu material, que constitui até agora de dois EP’s, já rola à um bom tempo pela internet (e inclusive em K7!!!) graças à disponibilização do próprio Ernst pelas redes de compartilhamento, coisa que ele propagou em matérias como o da Ptichfork e na entrevista para o rraurl.
Nós que fazemos o Esparadrapo sempre gostamos de divulgar o programa, mesmo que este esteja constantemente em fase de teste e tudo mais. Mas, apesar disso, odiamos ser os chatos que ficam pedindo encarecidamente para ver-nos! E por que eu nunca posto o Esparadrapo aqui? Simplesmente porque eu esqueço!
A gente já está na sexta edição do programa, e dessa vez, entrando na onda dos web-hits, fomos à Paulista pra saber do pessoal o que a gente tem que fazer pra ser sucesso na internet! Além disso, o tradicional bloco de “notícias do mês”. Todas as edições do programa podem ser conferidas no Youtube ou no nosso blog!
Pra quem já conhece o Animal Collective desde tempos atrás, ou quem recentemente se interessou pela banda e já cavou a internet procurando por todos os seus trabalhos, já percebeu que eles mudam sua sonoridade, ou até a sua proposta de como fazer música, tão rapido como a chuva vem/vai em São Paulo.
E quando eles juntam o seu período mais folk do que psicodélico, e ressuscitam umas das pioneiras do folk/rural… Acontece por algum momento (4 músicas, pra ser exato) um evento musical com preciosidade totalmente subestimada.
A muito esquecida, mas não menos avant-garde banda Guillemots nos deixa uma deliciosa herança! (de tão gostosa, a música Walk Into The Room merece até um smile, ou algo mais brega, se houver). Música pra arrepiar qualquer nível de sensibilidade.
Assistente de roteirista: Adorava Pocahontas na minha infância.
James: ainda to pirando com a mensagem de 2012…
Diretor de arte: (ouvindo um cd do YES no seu iPod-qualquer-que-seja-a-última-geração)
Produtor: vocês já leram aquele livro G-E-N-I-A-L, o Eragon?
(Ao fundo na sala, vê-se um pôster do Senhor dos Anéis e vários outros blockbusters, alguém está jogando King Kong no seu PSP personalizado de Transformers, e o filho de alguém cai de um balançinho instalado numa mangueira enorme.)
“E hoje, algo histórico está para acontecer. Eles estão aplaudindo o DJ. Não é a música, não é o criador, não o músico, mas o meio. É o começo da cultura new rave.” Uma das frases mais apoteóticas que a personagem Tony Wilson cita no filme A Festa Nunca Termina (24 Hours Party People).
Do começo ao fim servindo como condutor narrativo para ligar os fatos que acontecem durante o filme, como também para analisar no melhor estilo mockumentary o que aconteceu e o que está para acontecer no destino da cultura underground de Manchester entre os anos 70 e 90, Tony Wilson é mostrado como a força motora que trouxe à tona o selo Factory e o clube Haçienda, e fez serem reconhecidas bandas como Joy Division (e depois o New Order), A Certain Ratio e Happy Mondays.
O filme narra desde a famosa primeira apresentação dos Sex Pistols em um buraco com pouco mais que quarenta pessoas, e segue pelas inspiradas (e loucas) apresentações do Ian Curtis e seu suicídio, até o fechamento do clube Haçienda, que na época era o berço do nascimento da cultura new rave, movimento que misturou o acid rock ao house, passando aí no meio pelo abuso desmedido de todos os tipos de drogas, dificuldades financeiras, descontentamentos com a cidade e o declínio da ordem, chegando ao ponto de pessoas receberem tiros na calçada ou em um bar, sem saber o porque ou daonde.
Um ótimo ensaio não somente sobre o cenário do rock de Manchester daquela época (que hoje se mostra de novo como um ótimo lugar pra se tirar uma banda de rock), mas da música como um meio de interpretar e dar voz à uma sociedade. Não nos impõe uma idéia positiva ou negativa da vida “sexo, drogas e rock’n'roll”, mas nos faz refletir sobre a herança dessa época na cultura clubber de hoje em dia que anda cada vez mais DIY, disseminada por bandas cada vez mais independentes, seja de gravadoras, seja de idéias massificadas (no filme é até citado o termo indie), ou DJ’s que simplesmente só querem fazer uma festa sem música porcaria.